Al BASS
Os carros e os seus passageiros esperam pacientemente em fila, para poder passar o posto de controle do exército líbanês. Este é o primeiro posto de um conjunto de três, antes que se possa entrar na cidade de Tiro e marcam o começo do espaço de exclusão militar a sul do rio Litani. Os outros dois são da responsabilidade da ONU e dos capacetes azuis.
Ao longo da estrada desfraldam-se as bandeiras amarelas do Hezbollah, e vêm-se cartazes com fotografias de mártires palestinianos e do heroi local e líder deste movimento líbanês, Sheik Hassan Nasrallah.
A cidade em si é bastante atractiva e nota-se que têm sido feitos esforços para "curar" as cicatrizes das sucessivas guerras dos últimos 30 anos. No seu pitoresco porto de origem fenícia, os pescadores sentados no cais reparam as redes ou fazem trabalhos de manutenção nos seus barcos. Os carros da ONU, circulam lentamente nas ruas e avenidas nas suas patrulhas diárias e no souk decorre a azáfama normal de mais um dia.
É uma sencação estranha aquela que de repente me assalta. Aparte dos capacetes azuis, de origem polaca, sou o único ocidental a vaguear pelas ruas. Não há turistas. Talvez os acontecimentos de 2006 tenham afastado os ocidentais desta bonita cidade, pensei.
Tiro tem tudo para ser próspera.É uma cidade típica do Mediterrâneo, situada numa peninsula e com uma história que se estende por vários milénios, como se pode atestar nas impressionantes ruínas da cidade edificada pelos romanos. Incluindo um enorme hipódromo. Esta cidade, viveu ao longo do seu trajecto muitos tempos de intranquilidade e os actuais são marcados pela proximidade de Israel.
Foi também aqui, que mais de 10 mil palestinianos encontraram refúgio durante a guerra da independência de Israel. Ao principio bem recebidos, mas depressa relegados para os arredores da cidade num campo de refugiados que tem o nome de Al Bass, ao qual eu prefiro chamar de bairro.
As ruas estão limpas e organizadas, respira-se uma atmosfera calma, algumas mulheres conversam à porta de uma mercearia. As crianças correm atrás de uma bola. Uma delas acerca-se de mim e pergunta-me se sou da ONU, respondo que não, faz uma cara de desalento e afasta-se correndo com os seus camaradas.
Ali ao lado, uma igreja cristã destaca-se por entre as casas de construção simples, talvez faça trabalho humanitário, penso para comigo, surpreendido pelo facto de ver uma igreja cristã no meio de um bairro de refugiados palestinianos.
Mais à frente um grupo de homens está sentado em volta de uma mesa, jogam gamão, bebem chá e fumam chicha. Olham para mim com um misto de curiosidade e supresa. Uma fotografia de Yasser Arafat domina a entrada da rua principal do bairro, o coração da comunidade. Pergunto a um transuente se posso tirar uma foto e este responde-me que sim, com um inquisitivo sorriso. Pergunta-me de onde sou. Respondo que sou de Portugal.
-Ahh..., Cristiano Ronaldo, responde desta vez com amplo sorriso,...great player,
my name is Bassam, welcome to our neighbourhood.
Conversámos um pouco mais acerca de futebol e falámos da situação dos refugiados palestinianos no Líbano. São hoje mais de 400 mil em todo o país, não têm direitos sociais ou cívicos, limitados cuidados de saúde e as escolas são da responsabilidade da ONU.
Bassam é jovem e acalenta a esperança de uma vida melhor, sem este tipo de restrições. Gostava de ser engenheiro e está à espera que um primo no Qatar lhe consiga um visto para que emigre para este país. Por enquanto vai fazendo biscates na construção civil, ajuda um amigo na pesca e ocasionalmente faz algum trabalho para a ONU. Tal como todos os refugiados não tem acesso a trabalho legal. Não se sente infeliz, mas sente-se prisioneiro das vicissitudes do passado do seu povo e de um futuro incerto.
Despeço-me de Bassam, dirigindo-me para a saída do bairro, reflectindo sobre aquilo que vira e ouvira. Certamente que estas pessoas têm direito a uma vida mais digna, com direitos sociais, acesso ao trabalho, à educação e à saúde, por forma a contribuir de forma segura para a sua sustentabilidade enquanto comunidade, deixando para trás o estatudo de refugiados no qual vivem há mais de 60 anos.
As crianças correm de novo, desta vez atrás de uma garrafa de plástico. Entusiasmadas pela brincadeira parecem felizes. Desejo que o seu futuro também o seja.
